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sexta-feira, 3 de outubro de 2008

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

[Livro] Sobrevivi para Contar

Esse livro segue a mesma linha de "muito longe de casa", ou seja, é a auto-biografia de uma pessoa comum que se vê repentinamente lutando pela sobrevivência na África contemporânea. O interessante é que tais genocídios, verdadeiros holocaustos, continuam se sucedendo sem que se desperte nenhuma reação, ou mesmo interesse, no mundo "ocidental civilizado". Aparentemente, essas vidas não possuem importância em virtude de seu reduzido valor econômico.

Muito longe de casa trata da guerra civil em Serra Leoa, na visão do adolescente Ishmael Beah, que é recrutado como menino-soldado, vivendo todo o horor da guerra. O conflito mal era noticiado e não houve auxílio da ONU. Resultado final: a luta durou 10 anos, morreram 5,4 milhões de pessoas e só terminou com a intervenção do exército do Congo. 

Por sua vez, "Sobrevivi para contar" conta a história de Immaculée Ilibagiza, uma jovem que passou nada menos que 100 dias escondida num banheiro minúsculo com outras 6 mulheres para escapar do genocídio de sua minoria étnica em Ruanda no ano de 1994. Não houve nenhuma resposta da ONU, nenhuma intervenção ou qualquer auxílio externo. Resultado: o extermínio de cerca de 1 milhão de pessoas da minoria tutsi (80% dessa população) pela maioria hutu. Tal conflito é retratato com primazia no filme Hotel Ruanda (2004). O conflito somente é encerrado quando exilados tutsis (exilados durante a fuga em massa do último genocídio) invadem o país, a partir de Uganda, e derrubam o governo hutu que conduzia o genocídio. Por falar nisso, a salvação vem da mesma Uganda de Idi Amin (conhecido pelas alcunhas de "açougueiro de Kampala" e "senhor do horror", com seus hábitos de comer carne humana...), retratado de forma ultra-light em O último Rei da Escócia (2007).

Qualquer semelhança entre os conflitos pode não ser mera coincidência! Ambos os livros são  importantes por trazerem a pauta um problema que simplemente não se discute. Afinal, o genocídio nos conflitos citados superam o total de mortos do holocausto judeu na segunda guerra. As atrocidades praticados na "Mama África", para qualquer instabilidade política, evidenciam uma tendência de indiferença e pervesidade da raça humana. A receita é muito simples: instabilidade política (ausência de um processo democrático consolidado), pouca educação e falta de recursos econômicos. Os ingredientes são poucos, mas a receita mostra o pior da humanidade, principalmente se aliados a questões raciais. Neste cenário, facilmente surgem grupos ursupando o poder para expropriação de riquezas, e fazendo isso as custas de extermínios. Perceba que não existe uma razão para o problema ser exclusivamente africano: isso aconteceria da mesma forma nos países de primeiro mundo se as mesmas condições estivessem presentes. Uma evidência clara disso é a total indiferença a tais genocídios. Ou seja, os mesmos podem ser aceitos com surpreendente naturalidade (i.e. desde que não existam interesses econômicos em contrário). Triste mas verdadeiro!

Quando li muito longe de casa, o livro me tocou pela linguagem simples, direta e tocantemente honesta. Sem ideologias, floreamentos ou eufemismos: apenas a realidade. Esse não é o caso de sobrevivi para contar. A tocante história de sobrevivência, e seu relevante contexto histórico, são postos em segundo plano para dar lugar a um discurso religioso. Em diversos momentos, percebe-se claramente que sua narrativa é forçada para convergir às convicções religiosas da autora, no que beira a pregação pura e simples. Em certos momentos parece muito um livro de auto-ajuda de baixa qualidade. No entanto, em se tendo a boa vontade de relevar tais aspectos e de se concentrar na história em segundo plano, percebe-se que o livro consiste de um relato fabuloso de uma sobrevivente. Uma história a ser conhecida e disseminada como um alerta a todos.

Embora não tenha lido pessoalmente, outras fontes de informação são o livro "Gostaríamos de informá-lo de que amanhã seremos mortos com nossas famílias" de Philip Gourevitch (também disponível em edição de bolso) e os documentários Ghosts of Rwanda (2004) e Shake Hands with the Devil: The Journey of Roméo Dallaire (2004).

sábado, 5 de abril de 2008

[Livro] Contos plausíveis


Segundo João Cabral de Melo Neto, "Carlos Drummond de Andrade mostra que ser poeta não significava ser sonhador, e que a ironia e a prosa cabem dentro da poesia". De acordo!

Este livro é realmente inusitado! Antes de mais nada, porque me foi emprestado pela Ana "da elétrica" ("da elétrica" não porque a ela fosse hiperativa, mas porque cursamos engenharia juntos na boa e velha universidade estadual de Campinas! Bons tempos!!!!) que reencontrei depois de muitos anos.

Mas o livro também "faz por onde". São contos curtos e independentes: cada um com menos de uma página (um chega a ter 3 linhas). Perfeito para quem não tem saco de ler textos longos! São extremamente divertidos, onde cada final garante uma boa risada. O texto exercita de forma primorosa dois princípios básicos: simplicidade e lógica (no meu entender, duas das grandes virtudes universais). Deveria ser usado nas escolas para ensinar redação e bom senso (isso se ensina?).

Verdade seja dia: o escencial é que me diverti demais lendo esse livro, o que foi um problema pois acabou quase imediatamente, me deixando "orfão". A grande "sacada" vem por conta de uma implícita crítica irônica à pretensão literária, com finais perfeitamente lógicos à situações fantasiosas (dái o nome contos plausíveis). Desta forma, clichês são satirizados com um final comum, gerando uma surpresa e uma boa risada. Na verdade, a identificação com o livro foi tão grande, em seu culto a simplicidade e racionalidade (i.e. simplicity is beautiful), que perguntei ao bom e velho google se o Drummond não era engenheiro. Mas era farmacêutico!

Para dar o gostinho, eis um conto plausível "pseudo-aleatório":


Abotoaduras


O maior fabricante de abotoaduras de punho fechou a indústria depois de convencer-se de que é infinitamente reduzido o número de camisas de manga comprida à disposição da humanidade. E, mais, que os exemplares deste gênero, ainda existentes, são providos de botões, dispensando abotoaduras.


– Trabalhei a vida inteira no setor – lastimava-se – e almejava legar a meus filhos a tradição das abotoaduras de punho, como requinte terminal de uma camisa digna desse nome. Os fatos ergueram-se contra mim. Não posso mais produzir abotoaduras de punho para camisas sem punho ou de punho abastardado por míseros botões de plástico.


Concluiu que é o fim da civilização e ia enforcar-se numa camisa esporte, estampada, quando esta, movida por vento súbito, saiu pelos ares, qual bandeira solta. E era tão bonito o esvoaçar do pano bigarreado, tão graciosas as evoluções que o homem resolveu desistir da morte e aplicar sua fortuna em uma indústria colossal de camisas de manga curta.

sexta-feira, 7 de março de 2008

[Livro] Muito longe de casa


Na contra-capa deste livro tem uma crítica da Newsweek: "É necessário ler apenas 20 páginas de 'Muito Longe de Casa' para afirmar que, se fosse ficção, o jovem autor deveria ganhar um prêmio Nobel". Parece uma chamada exagerada. Mas não é!

Essa é a auto-biografia de Ishmael Beah, contanto sua infância e adolescência em Serra Leoa em meio a uma guerra civil. O menino perde a família, passa a fugir para sobreviver ao conflito até ser recrutado como soldado pelo exercíto. A linguagem é simples, direta e tocantemente honesta. O livro foge a todos os lugares comuns. Ishmael não descreve em detalhes as atrocidades que comete como soldado, apenas em flashes (evidentemente pela vergonha e por querer esquecer), preferindo se ater a fuga e ao seu processo de recuperação. Mesmo assim, os flashs e os relatos de sobrevivência dramática deixam claro o tipo de violência praticada no interior de Serra Leoa de 1991 a 2002. A tática geral consiste em recrutar crianças, e tomar suprimentos de pequenas aldeiras para sustentar continuo conflito entre exército oficial e rebeldes (RUF). O detalhe é que em vez de saquear o necessário, a orientação é sempre torturar e exterminar com crueldade a todos os habitantes da aldeia (aparentemente na lógica corrente, massacrar com crueldade por nada demonstra força, sendo uma postura desejável). Não é preciso imaginar o custo humano dessa política em um povo já miserável e sem recursos.

Um detalhe que me chamou atenção é a discrepância entre a longevidade das pessoas e das armas. Os meninos soldados são extremamente descartáveis, mas as armas são sempre capturadas e postas novamente em circulação, nunca sendo destruídas.

Coincidência ao não, assim que acabei o livro liguei a TV e estava começando naquele instante o Senhor da Guerra no telecine!!! Embora o filme nem de longe sonhe em arranhar a profundidade do livro, completa o cenário discutindo o lado de quem ganha com tudo isso (apresenta a vida de um traficante de armas para Serra Leoa nesta mesma guerra civil). Ver o filme logo após ler o livro foi muito forte, porque remetia constantemente aos episódios do último, tornando-os ainda mais sinistros. O conflito de Serra Leoa ainda inspirou o filme Diamante de Sangue, que também é um conto da carochinha perto do livro. Acho que o filme que melhor captura a atmosfera desse livro (e do problema) é o Hotel Ruanda, embora não trate da questão das crianças propriamente dita (e também seja mais ameno). Em comum, o filme e o livro ilustram bem a perversidade humana, e que na falta de interesse, ninguem interfere na matança (em verdade, o presidente eleito somente tomou posse em Serra Leoa com a ajuda do exércido do Congo, aprovado pela ONU, mas essa ajuda demorou 10 anos).

Muito provavelmente, as únicas publicações comparáveis que tenha entrado em contado foram as graphic novels Gen (talvez a melhor de todos os tempos) e Maus, respectivamente, auto-biografias de um sobrevivente de Hiroshima e do Holocausto. Todos são impedíveis e as pessoas deveriam ler esses livros em alguma ocasição.

Para se pensar! E como disse Ghandi: "a civilização é uma boa idéia".

Apenas no enigma do macaco eu não vi graça: percebi a solução imediatamente!! :)