sexta-feira, 7 de março de 2008

[Livro] Muito longe de casa


Na contra-capa deste livro tem uma crítica da Newsweek: "É necessário ler apenas 20 páginas de 'Muito Longe de Casa' para afirmar que, se fosse ficção, o jovem autor deveria ganhar um prêmio Nobel". Parece uma chamada exagerada. Mas não é!

Essa é a auto-biografia de Ishmael Beah, contanto sua infância e adolescência em Serra Leoa em meio a uma guerra civil. O menino perde a família, passa a fugir para sobreviver ao conflito até ser recrutado como soldado pelo exercíto. A linguagem é simples, direta e tocantemente honesta. O livro foge a todos os lugares comuns. Ishmael não descreve em detalhes as atrocidades que comete como soldado, apenas em flashes (evidentemente pela vergonha e por querer esquecer), preferindo se ater a fuga e ao seu processo de recuperação. Mesmo assim, os flashs e os relatos de sobrevivência dramática deixam claro o tipo de violência praticada no interior de Serra Leoa de 1991 a 2002. A tática geral consiste em recrutar crianças, e tomar suprimentos de pequenas aldeiras para sustentar continuo conflito entre exército oficial e rebeldes (RUF). O detalhe é que em vez de saquear o necessário, a orientação é sempre torturar e exterminar com crueldade a todos os habitantes da aldeia (aparentemente na lógica corrente, massacrar com crueldade por nada demonstra força, sendo uma postura desejável). Não é preciso imaginar o custo humano dessa política em um povo já miserável e sem recursos.

Um detalhe que me chamou atenção é a discrepância entre a longevidade das pessoas e das armas. Os meninos soldados são extremamente descartáveis, mas as armas são sempre capturadas e postas novamente em circulação, nunca sendo destruídas.

Coincidência ao não, assim que acabei o livro liguei a TV e estava começando naquele instante o Senhor da Guerra no telecine!!! Embora o filme nem de longe sonhe em arranhar a profundidade do livro, completa o cenário discutindo o lado de quem ganha com tudo isso (apresenta a vida de um traficante de armas para Serra Leoa nesta mesma guerra civil). Ver o filme logo após ler o livro foi muito forte, porque remetia constantemente aos episódios do último, tornando-os ainda mais sinistros. O conflito de Serra Leoa ainda inspirou o filme Diamante de Sangue, que também é um conto da carochinha perto do livro. Acho que o filme que melhor captura a atmosfera desse livro (e do problema) é o Hotel Ruanda, embora não trate da questão das crianças propriamente dita (e também seja mais ameno). Em comum, o filme e o livro ilustram bem a perversidade humana, e que na falta de interesse, ninguem interfere na matança (em verdade, o presidente eleito somente tomou posse em Serra Leoa com a ajuda do exércido do Congo, aprovado pela ONU, mas essa ajuda demorou 10 anos).

Muito provavelmente, as únicas publicações comparáveis que tenha entrado em contado foram as graphic novels Gen (talvez a melhor de todos os tempos) e Maus, respectivamente, auto-biografias de um sobrevivente de Hiroshima e do Holocausto. Todos são impedíveis e as pessoas deveriam ler esses livros em alguma ocasição.

Para se pensar! E como disse Ghandi: "a civilização é uma boa idéia".

Apenas no enigma do macaco eu não vi graça: percebi a solução imediatamente!! :)

3 comentários:

Campo de Possibilidades disse...

O Alex "Brasil" - não me acostumo com esse nome - está com um site bem bacana: http://alexbrasil.art.br/
Eu sugeri a ele criar um blog-diário, mas ainda nada.

Ei, vc achou "Diamante de Sangue" fichinha??? Como assim?!

Ah, muito bom saber que eu tenho um leitor, kkk. Inté.

Jorge Albuquerque disse...

Veja bem, Alex "Brasil" é um bom nome no contexto artistico, e faz sentido uma vez nosso colega agora é oficialmente (e nao oficiosamente) do ramo das artes!!! Ademais, concordo contigo que embora seja bom, talvez seja um tanto obvio (alike BBB). Bem, se fosse eu para me rebatizar colocaria: "Alex.S" ou "Alex Stumbler" (e chamaria o site de "Alex Stumbler e Mulheres Aladas") [eu não presto!!! :D Sacaneio até com a minha mãe]. Curti o design do site do Alex (até desenho ala Picasso tem!!!), mas não consequi abrir o conteudo! Ia ser divertido ver a produção dele atual. :D

Cara, nesse exato momento estou em Fortaleza (sob peregrinação) e acompanhado da Aninha e do Ze da PQP/EE95-noite (agora casados). Foi o dia na praia e depois num forrozao pe-de-serra! Muito legal!!! Muito legal para matar a saudade do povo da graduação (eu sempre sinto muita saudade do povo)!!!

Quanto ao filme do "di carpio", acredite: é hollywoodiano!! O troço é bem mais embaixo!! Veja bem, talvez seja melhor pensar no "pao nosso de cada dia" do que nas questões da Africa (afinal se trata de "outro mundo distante/universo paralelo"). Mas não parece certo, e tb não precisa ir tão longe! Hoje a loira me ligou, abalada, dizendo que morreu um dos alunos dela!! Coisas do ambiente em que ela trabalha/vive/respira!! Eu mesmo nunca acreditei na civilidade e não boto lá muita fé na humanidade, mas acho meio dificil viver entre os ETs!!

Pode deixar q sou assinante dos teus escritos. Mas veja bem a qualidade da sua audiencia. Um bom tempo eu li diariamente a coluna do Macaco Simão na Folha!! hehehehehehe...

Campo de Possibilidades disse...

Então, aí vai uma dica de um blogueiro entre os poucos que leio. Nada de publicar muito, porque vc não consegue manter o ritmo e o blog morre de inanição. Eu estou postando uma vez por semana. Outra coisa, quando eu resolvi fazer o blog, que está me acrescentando muito, eu resolvi fazer porque minha autocrítica não me permitia fazer nada, e até jabuti anda, né? Mas é muito bom mesmo saber que tenho um leitor, porque eu estava fazendo sem me importar se teria alguém que lesse. Daí que isso já compensa e muito. Abração.